Reflexões sobre uma São Silvestre distante

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Vi de longe a São Silvestre, acompanhando pela televisão o show que a chuva deu, aparecendo e desaparecendo, caindo a cântaros ou simplesmente gotejando, criando poças gigantescas ou escorrendo rapidamente pelos esgotos.

Vi a coragem do irmão de Bekele e a bravura indômita de Priscah Jeptoo, defendendo a todo custo a liderança conquistada e que, em alguns instantes, pareceu perdida. Acho que ela é a corredora de elite com o estilo mais estranho que já vi.

Não tenho, porém, como avaliar o desenrolar da prova para os milhares de apaixonados por corrida que lá estiveram.

Sei, porque corri nele e porque entrevistei médicos e técnicos, que o novo circuito oferece mais riscos para os corredores, é mais perigoso. A mudança, feita de última hora, pode ter pegado muitos atletas despreparados para o rigor das duas grandes descidas. Mas não encaro isso como um problema ou demérito do circuito: se for mantido, os candidatos a corredores de São Silvestre terão de organizar seu treinamento para esse tipo de percurso e pronto.

Do ponto de vista de desenho do trajeto, acho pior a chicane da Mario de Andrade, que me parece um incômodo desnecessário. Os desenhistas do percurso poderiam quebrar a cabeça um pouco mais e evitar aquele cotovelão de umas poucas centenas de metros.

Quanto à reação dos corredores, os primeiros comentários que chegaram foram de crítica, especialmente à zona de dispersão, que ficou um charco, segundo os relatos que recebi e mensagens que conferi nas redes sociais e fóruns especializados.

De fato, como a previsão era de chuva, acredito que os organizadores poderiam ter previsto que o gramado não iria segurar os milhares de passadas chegantes e tomado medidas para tornar a dispersão um pouco mais confortável. Mas aí já não era a prova.

Houve reclamações, também, de falta de água nos postos iniciais, o que considero uma falha grave, ainda mais em uma prova que se proclama internacional.

Quanto ao percurso, os comentários variaram. Teve gente que reclamou das dores da descida, e houve quem dissesse que a Brigadeiro, ladeira abaixo, foi demais, superemocionante. É normal que os comentários também reflitam o desempenho de cada um na prova ou como cada um encara a São Silvestre.

Muitos comentários mantiveram o protesto contra a mudança da chegada na Paulista, e consideraram decepcionante a chegada no Ibirapuera, complicada pela falta de chuva e pela dificuldade de acesso a transporte –muitos taxistas se recusaram a levar corredores encharcados, segundo vi nas redes sociais..

Para mim, porém, a imagem que ficou da prova foi a de um grupo de gordinhos, totalmente molhados, correndo felizes da vida, ainda nos primeiros quilômetros da prova, pouco depois do Pacaembu. Aliás, mesmo os não corredores que assistiam à prova comigo notaram o grupo, sorriram, elogiaram.

Aquela imagem de entusiasmo deixa evidente que a corrida é para todos e que, por mais dura que pareça e por mais difíceis que sejam as condições, pode ser um prazer e uma alegria. E que todos podem desfrutar dela, gordos ou magros, jovens ou velhos, ricos ou pobres. É a democracia dos corpos no asfalto.

Blog Rodolfo Lucena

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Guarulhense, desenvolvedor de softwares e soluções web, apaixonado por corridas, fotografia, viagens e muito rock.

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